De antemão, não vou colocar em discussão aqui a veracidade da narrativa de Mary Shelley,  relatada na postagem anterior. Ou mesmo se o tal pesadelo ocorreu ou não. Afinal, ao que parece, a inspiração onírica fazia parte do imaginário romântico e gótico. Bram Stoker, por exemplo, anos mais tarde, vislumbraria em sonhos o que viria a ser a semente de Drácula (1897). 

Devemos lembrar também que essa relato foi escrito em 1831, bem depois da publicação da primeira edição. Não seria demais acreditar que a escritora tenha exagerado alguns aspectos em função do efeito que causaria, alimentando a mística acerca de sua obra. No que teria sido bem sucedida, pois o pesadelo foi incorporado ao mito, assim como o “verão assombrado” na Suíça. 

Douglas Walton (Percy Shelley), Elsa Lanchester (Mary Shelley) e Gavin Gordon (Lord Byron) em A Noiva de Frankenstein (The Bride of Frankenstein, 1935).

Para um homem já seria excelente, mas para uma mulher era excepcional

De qualquer forma, Mary ficou empolgada com a idéia. Começou a passar para o papel logo na manhã seguinte com a intenção de escrever um conto curto. Essa primeira versão incluía somente o despertar da criatura e o horror de Frankenstein perante a terrível obra. Graças à insistência de Percy, ela foi incitada a ampliar a idéia. Acabando por superar o desafio proposto por Byron, de criar uma história de fantasmas.

Ela foi a única do grupo a levar adiante a empreitada com seriedade, rumo a um resultado acabado. Bem como deixou para a posteridade uma das mais famosas histórias de horror de todos os tempos.

Frankenstein foi publicado pela primeira vez um ano e meio depois. O escritor H.P. Lovecraft é enfático em seu “O Horror Sobrenatural na Literatura” ao afirmá-lo como “um dos clássicos de horror de todos os tempos”.

Ainda assim, o sucesso inicial do livro pegou a escritora de surpresa. Curioso que, a princípio, acreditava-se ser o trabalho de um homem. Quando Mary assumiu a autoria, um dos comentários foi de que a obra “para um homem já seria excelente, mas para uma mulher era excepcional!” (Blackwood’s magazine). Alguns rumores, inclusive, atribuíam o livro a Percy Shelley.

Ilustração de David Henry Friston para o romance Carmilla, de J. Sheridan LeFanu (1872).

Ecos de um verão assombrado e o vampiro literário

Quanto aos seus parceiros na lendária “competição” tanto Percy quanto Byron logo perderam o interesse, dedicando-se aos seus projetos pessoais. Mesmo sendo os dois poetas familiarizados com o horror.

O primeiro já publicara dois contos de teor sobrenatural ainda calouro em Oxford. Bem como introduziu posteriormente elementos góticos em seus poemas, carregados de personalidade sombria e elementos fantasmagóricos.

Byron, por sua vez, já explorava o vampirismo no poema The Giaour (1813). Demonstrando conhecimento das lendas gregas acerca do vrykolaka – uma espécie de cadáver animado por um demônio. Ele retomou o tema no que seria a sua contribuição para a temporada assombrada na Villa Diodati. Uma história sobre dois amigos ingleses em viagem pela Grécia, sendo que um deles morre e retorna como vampiro. A iniciativa, logo abandonada, resultaria em interessante polêmica. 

Por fim, John Polidori, também desestimulado da empreitada, acaba por protagonizar um caso real de vampirismo literário. O médico recolheu, em suas anotações dos eventos ocorridos na Suiça, um resumo da narrativa de Byron. Que utilizou em seu conto “O Vampiro”, publicado em 1819 no New Monthly Magazine. O problema é que o editor, espertamente, publicou a história como de autoria do lorde, resultando em uma grande confusão. Que permaneceu mesmo após as tentativas de Byron e Polidori em esclarecer o caso. O fato é que “O Vampiro”, cujo personagem principal – Lord Ruthven -, era claramente inspirado em Byron, foi responsável pela primeira onda de interesse pelo tema. Como resultado, serviu de inspiração não só para Carmilla (1872), do escritor irlandês Sheridan Le Fanu como também para o Drácula de Bram Stoker.

Continua…

Primeira parte.

Segunda parte.

Para saber mais:

O Livro dos Vampiros, de J. Gordon Melton.

O Vampiro, de William Polidori.

Vídeos:

Lord Byron on History Channel Biographies (em inglês)

Polidori, Lord Byron y el vampiro romántico (em espanhol)

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