De acordo com o relato de Mary Shelley, no verão de 1816, as chuvas foram incessantes. Ficou confinada vários dias na Villa Diodati em companhia de Percy Shelley, Claire Clairmont, John Polidori e o anfitrião Lord Byron. Para fugir ao tédio os veranistas dedicaram-se, na noite de 16 de junho, a ler uns para os outros histórias de horror. Contos tirados do Fantasmagoriana, uma coletânea de histórias de aparições de espectros e fantasmas traduzidos do alemão para o francês.

Primeiramente, foi Byron quem propôs que cada um escrevesse a sua própria história. Diz a autora em suas memórias que se dedicou a pensar em uma narrativa que rivalizasse com as que tinham lido. Criar uma história que falasse aos misteriosos medos da natureza humana e despertasse um espantoso horror. Este capaz de fazer o leitor olhar em torno amedrontado, de gelar o seu sangue, e acelerar os batimentos do seu coração. Se não conseguisse isso, sua história de fantasmas seria indigna de seu nome.

Villa Diodati, Suiça

A princípio, Mary experimentou uma certa dificuldade em encontrar uma idéia, o que ocorreu após alguns dias. Teria ouvido atentamente as conversas entre seu companheiro e Lord Byron. Especialmente as relacionadas com a natureza da vida e as teorias de Erasmus Darwin, avô do autor de A Origem das Espécies. Também enfatizou as discussões sobre a possibilidade de correntes galvânicas reanimarem cadáveres. Assim como as especulações dos dois poetas de que talvez algum dia um cadáver viesse a ser reanimado a partir de componentes reunidos. 

Entre a ciência e o pesadelo

Antes de mais nada, Percy Shelley era fascinado pela ciência. O poeta discorreu sobre as descobertas do fisiologista Luigi Galvani. Cientista italiano que em 1791 moveu a perna de um sapo morto ao tocá-la com dois diferentes tipos de metal. Esse processo não era desconhecido de Polidori, recentemente formado em medicina. Ele teria contribuído com suas observações acerca do trabalho do sobrinho de Galvani, Giovanni Aldini. Este, não satisfeito com os sapos mortos, teria utilizado o mesmo procedimento em cabeças decapitadas de bois. Logo conseguiu com que as orelhas dos animais se mexessem, línguas pulassem para fora e olhos revirassem nas órbitas.

Por fim, Aldini levou os seus experimentos para corpos humanos, eletrificando o cadáver de um assassino enforcado, em 1803. Feito que repetiu no ano seguinte com maior carga elétrica, com o cadáver se erguendo e cerrando os punhos. 

Giovanni Aldini reanimando o cadáver de um criminoso executado

A gestação de Frankenstein

Portanto, ao resultado dessas conversas sobre a imaginação de Mary, soma-se ao estado de espírito do grupo, bastante deteriorado pelo confinamento causado pelas chuvas. Claire era sumariamente ignorada por Byron, que a humilhava, assim como torturava psicologicamente Polidori. A escritora suspeitava de que a meia-irmã estava tendo um caso com Shelley, situação que Byron estimulava.  Fora o possível uso de alguma substância da qual Percy era devoto (como o láudano e o ópio).

Tudo isso teria contribuído para o pesadelo que emergiu do inconsciente da jovem, mas um fato do passado certamente teve grande influência. Conforme o professor Radu Florescu, a dor de perder uma menina prematuramente, foi para ela excruciante. Nascida em 22 de fevereiro de 1815, a menina morreu um mês depois. Foi encontrada fria e contorcida junto ao seio de Mary na manhã de 6 de março. Na ocasião ela comentou: “Sonhei que meu bebezinho voltou à vida outra vez; que ele estivera apenas frio e quando o aproximamos do fogo ele reviveu. Acordei e não encontrei o bebê. Pensei nele o dia inteiro”.

Dessa forma, o embrião de Frankenstein já estava em gestação no inconsciente de Mary Shelley. Ganhando forma no pesadelo em que um pálido estudioso das ciências ocultas contemplava sua criação monstruosa. A medonha criatura mostrava sinais de vida, movendo-se agitada pelos estímulos de poderosa máquina.

Conforme a própria autora, na sua descrição desse “sonho lúcido”, a primeira impressão que teria Victor Frankenstein de sua criação: 

“Ele dorme; mas é acordado; abre os olhos; avista a horrorosa coisa de pé ao lado de sua cama, afastando as cortinas e contemplando-o com os olhos amarelos, vazios de expressão, mas especulativos”.

Continua…

Para ler a primeira parte desse texto clique aqui.

Para saber mais:

Em Busca de Frankenstein, de Radu Florescu.

Frankenstein, de Mary Shelley.

O Horror Sobrenatural na Literatura, de H. P. Lovecraft.

Vídeos:

Os experimentos de Giovanni Aldini (em inglês)

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